segunda-feira, 2 de maio de 2011

La Belle au Bois Dormant (A Bela Adormecida)


             
                Era uma vez, em um reino tão distante quanto à imensidão, um enorme e suntuoso castelo, cercado por um paupérrimo vilarejo. Neste castelo, dura fortaleza de pedra e concreto, residia um rei e uma rainha, desejosos por um herdeiro para seu trono, mas traídos por sua própria natureza que lhes impedia de gerar um filho. Neste ínterim, certo dia, lhes fora deixada uma cesta em frente aos ameaçadores e enferrujados portões do castelo, carregada de um bebê e apenas uma pequena nota dizendo “este é meu presente, não procurem saber sobre o passado, pensem apenas no futuro”. Tomados pela dúvida, mas penalizados, decidiram que cuidariam do frágil e rosado bebê, lhe alcunhando filha. Para não despertar a cólera de seus súditos, ávidos por um substituto de sangue ao rei, decidiram convocar uma grande celebração e convidaram sete fadas, cada uma guardiã de determinada virtude. Pediram-lhes, em segredo, que alegassem ter intercedido magicamente e dado à rainha um filho legítimo, através de seus poderes místicos.

           Entretanto, uma das fadas decidiu não participar, esta sendo a representante da castidade. Temendo que a mesma pudesse revelar seu segredo profano, o rei ordenou que seus capatazes a perseguissem e decretou que fosse sacrificada em prol da paz e harmonia no reino. Antes de perecer, a fada profetizou: “Quando a princesa completar quinze anos cairá sobre teu reino a dor, desgraça e sofrimento. Tua filha dormirá por 100 dias e se levantará com teu reino caído”.

         Então o dia do festejo chegou, milhares de nobres adentravam o enorme salão central do castelo, revestido de ouro e beleza, enquanto a plebe se empoleirava nos perigosos e escorregadios muros que lhes separavam de tamanha festa. O rei, altivo em seu dia de glória, proclamou que cada uma das fadas deveria presentear o bebê com suas virtudes maravilhosas: A fada da generosidade tornou-a afável e altruísta; A fada da temperança lhe fez moderada; A fada da diligência a fez determinada; A fada da paciência ergueu-a serena; A fada da caridade lhe fez compassiva e a última, fada da humildade, lhe proveu a abnegação.

       No decorrer da comemoração, tentaram aproximar sete mendigos e suplicaram por um pedaço de pão, já consumidos pela fome. O rei ordenou que fossem expulsos do castelo, enquanto a realeza, jocosamente, lhes apontava e gargalhava possuídos pela ebriedade. Humilhados, os esfarrapados e consternados mendigos, partiram com rancor em seus corações.

       Quinze anos se passaram e os festejos de comemoração para o aniversário da princesa se aproximavam. No dia da grande comemoração, o rei e a rainha deixaram o castelo para receberem, em uma cidade longínqua, um duque de outro reino. Neste ínterim, um jovem belíssimo se aproximou dos portões. Como em um passe de mágica, eles se abriram e, por onde passasse, os guardas e serviçais tombavam inertes. Quando todos súditos no castelo caíram neste estado, o rapaz se aproximou do quarto de tão bela e virtuosa princesa. Ao recebê-lo, a jovem sentiu-se de maneira como nunca havia antes, um clamor lascivo lhe tomava a cabeça enquanto seu corpo repousava na cama de ouro. Quando os lábios de ambos se encostaram, a princesa tombou em um sono pesado, impenetrável e denso. Assim como chegou, enigmático desapareceu por dentre as sombras que dominavam a fortaleza. Apenas deixou uma pequena nota na cabeceira da cama. Quando o casal real retornou, caíram pasmos diante daquela situação calamitosa, consternados em ver seus súditos e, principalmente, sua filha, tombados em tão vil torpor.

          Ao ler a nota deixada, o rei espantou-se com suas palavras: “Sabes quem esteve em teu castelo? Lembra-te de mim? Sou um dos mendigos que humilhastes nos festejos para tua filha. Só pude entrar em tua morada porque vos esquecestes de imbuir tua filha em uma virtude: a castidade, provida pela fada que reservastes destino tão terrível. Represento a luxúria, sou o espírito das paixões, tua filha não era casta e deixou-me possuí-la. Regozija-te em teu declínio”.

           As semanas se passaram e o reino caia em desgraça. Os plebeus não tinham mais comida, provida toda pelos serviçais que, agora, jaziam em torpor. O rei e a rainha viviam em miséria, cerceados por gritos e súplicas oriundas do outro lado do muro rígido que lhes separava da escória camponesa. Tempos depois, completados noventa e nove dias a partir do acontecimento, os muros começaram a tremer, milhares de mãos os empurravam rumo ao chão. Quando o exército de populares adentrou o castelo, espantaram-se com seu estado decrépito; corpos de serviçais tomavam o chão enquanto o rei e a rainha permaneciam, imóveis, em seus tronos enferrujados. Consternados por terrível imagem, cercaram o rei e lhe deram um pedaço de pão, enquanto carregavam o casal para fora da edificação. Logo, as paredes começaram a ceder e o castelo ruiu, levando apenas o tempo para um jovem camponês retirar o corpo da bela princesa, que repousava a tanto tempo, de seu cômodo escuro.

       Apenas um dia depois, a bela menina acordou-se, deitada em uma cama de vime, cercada por humildes, mas, aconchegantes braços de uma mulher caridosa. Tão virtuosa, lhe cedeu à compaixão e emergiu em lágrimas, para apenas depois receber um intenso e caloroso abraço do rei e da rainha, agora trajando trapos. Surgiu-lhe na cabeça que tão generosa mulher, salvadora de sua família, era aquela que lhe deu a vida, que gerou e entregou-a para o rei, a fim de ser a chave para a libertação do povo sofrido que vivia do outro lado do muro. Não obstante, cerca de cinco anos depois, casou-se com o rapaz que lhe salvou a vida dentre o castelo em ruína e tomou o poder, agora longe de castelos e muros, para ser a rainha dos plebeus, de seu povo, dos pobres.

       Este que vos conta esta história viveu-a e pôde aprender valorosa lição; Vi tronos enferrujarem, reinos caírem, reis esfomeados suplicarem por pão, mas, hei de ver um dia, aquilo que a virtude dos humildes não possa edificar.     

Postado por Mysterious Guy

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