A Bela Adormecida
Vivia em um belíssimo castelo real, muito diferente do local onde me encontro hoje. Era respeitada por todos e amada por meu esposo. Porém a meus olhos isso não bastava, para a felicidade ser completa eu precisava dar um herdeiro ao Rei.
Passaram-se alguns anos e a minha agonia só aumentava, principalmente ao ver o desapontamento de Vincent diante da possibilidade de eu nunca conseguir dar-lhe um filho.
Certo dia resolvi dar um passeio nas redondezas do castelo e avistei um vilarejo de camponeses, ao aproximar-me de uma humilde casa eu vi uma jovem grávida apanhando ervas no jardim. Fiquei a observar durante alguns minutos, invejando aquela humilde camponesa que parecia tão feliz.
No caminho de volta ao castelo, me ocorreu uma ideia da qual me arrependerei eternamente, mas que tomou conta da minha cabeça a ponto de não conseguir pensar em outra coisa. Tentei afastá-la porém não adiantou, então decidi por em prática.
Todos os dias a partir daquele momento, eu rodeava o vilarejo observando a moça. E foi assim até o dia que a jovem deu a luz. Neste dia eu estava próxima e vi toda a movimentação, uma anciã entrou na casa com um jarro em mãos e algumas mulheres se aproximaram e comentavam o acontecimento. Eu estava por de trás de alguns arbustos e fiquei lá até tudo se acalmar e todas irem para suas casas. Então caminhei até a porta do casebre, esta estava entre aberta e pude ver o bebê em um cesto e a mãe ao lado dormindo. Entrei silenciosamente, peguei a criança no colo e levei-a.
Chegando ao castelo tive que enfrentar meu maior medo, que era contar a Vincent o que eu havia feito. Ao falar-lhe percebi que a maneira como ele me olhava demonstrava decepção e um certo desprezo pelo meu ato. Porém ao ver a menina, seu olhar se iluminou e ele resolveu aceitar e acobertar o que fiz. Decidimos então dar-lhe o nome de Clair.
Passados alguns dias do acontecido, eu caminhava no jardim do castelo com Clair nos braços quando, surgida do nada, apareceu a jovem da qual roubei a criança. Muito assustada fiquei sem ação diante daquela mulher. Foi então que ela lançou-me estas palavras que jamais esquecerei:
- Esta criança que carregas nos braços como se fosse sua, mas que foi gerada em meu ventre, trás consigo um poder imenso que vem sendo passado por todas as gerações da nossa família. Porém este poder pode influencia-la negativamente, fazendo com que se torne uma pessoa má e sem escrúpulos. Para que isto não aconteça você deve devolver-me a menina, pois ela deve ser criada por alguém que conheça o dom que ela possui para poder ajudá-la.
- De maneira alguma. Eu lhe disse.
- Então todos que rodeiam a menina sofrerão as consequências.
- Sei que estas mentindo, uma criança com um olhar tão angelical não será capaz de cometer uma maldade sequer. Falei-lhe
- Irás lembrar de minhas palavras, porém será tarde. Disse ela sumindo por entre as árvores.
Alguns anos se passaram, Clair cresceu e se tornou uma linda menina de olhar expressivo e brilhante, pele alva e um sorriso lindo. Mas algo me preocupava, ela tinha uma personalidade muito forte, não gostava de ser contrariada e alternava momentos de alegria extrema com momentos de irritação e fúria.
Nosso relacionamento era de cumplicidade, mas sentia que em certos momentos ela se tornava dominadora, a ponto de me convencer a encobrir seus erros, para que seu pai não descobrisse.
Com seu pai ela era extremamente carinhosa, simplesmente o adorava e conseguia dele o que quisesse. Ele orgulhava-se muito dela, pois Clair era muito inteligente e extremamente sagaz, apesar da pouca idade.
Já os criados a temiam, pois os destratava e exigia que fizessem coisas absurdas, com a ameaça de que se não a obedecessem ela diria ao Rei que eles não estavam a tratando como ela merecia e eles então seriam mandados embora.
Certo dia ao entrar no quarto de Clair deparei-me com ela gargalhando enquanto a pobre Violet, a governanta, recolhia e limpava a refeição que minha filha havia jogado propositalmente no chão. Reprendi ela por sua atitude, porém ela não se abalou. Não preocupava-se com o que dizia seu único medo era que Vincent soubesse.
Clair já estava com quatorze anos e cada vez mais perversa. E o que fazia sentir-me pior era a minha passividade perante seus atos. Mas algo maior, uma força estranha que não conseguia explicar, não me deixava agir.
Até que algo terrível aconteceu, certa noite Vincent e eu chegávamos de uma viagem e ao entrar no castelo escutamos os gritos de Violet, ela gritava por socorro. Corremos até o quarto de Clair, mas era tarde demais, Violet estava estendida no chão ensanguentada e Clair a olhava com um brilho assustador nos olhos e uma faca na mão. Neste momento eu lembrei das palavras da verdadeira mãe de Clair e comecei a chorar desesperadamente.
Foi então que aconteceu, como num passe de mágica, uma mulher apareceu ao lado de minha filha, pegou em sua mão trêmula. Então ao olha-la eu reconheci, não entendia como, mas ela não havia envelhecido um ano sequer. Vincent olhou-me assustado sem entender o que estava acontecendo. Neste momento a mulher falou.
- Eu previ que isto iria acontecer, mas ignoraste o que lhe disse e não deixaste eu cuidar de minha filha.
- Perdoe-me. Fui egoísta, queria ser mãe, dar um herdeiro à meu esposo. Não pensei nas consequências de meus atos. Agora suplico do íntimo de minha alma que ajude-nos se puderes.
- Sim, ajude-nos ressaltou Vincent. Sei que não deveria ter concordado com a atitude de minha esposa, mas quando olhei pra Clair senti tanta ternura que não consegui deixa-la ir.
- Só existe uma coisa possível nesta situação, encantarei todo o reino para que todos durmam por cem longos anos, este será o tempo necessário para a redenção de minha filha. Toda via para o reino despertar, ela deverá receber a mais pura demonstração de amor verdadeiro.
E dizendo isto, uma névoa tomou conta de tudo em volta e todos caíram num sono profundo.
Cem anos passaram-se e muitas lendas foram contadas sobre os moradores do reino. E conforme soube posteriormente nenhuma delas expressava a verdade. Muitos curiosos tentaram descobrir o que lá havia, sem sucesso, pois o caminho para chegar ao castelo era de difícil acesso devido a vegetação muito densa nasceu ao redor.
Até que em um dia tempestuoso um jovem viajante cavalgava procurando abrigo e avistou o castelo. Decidiu entrar com seu cavalo pelos portões entreabertos e com sua espada cortou os galhos que impediam a passagem. Ele avistou a porta e entrou, não vendo ninguém subiu aos aposentos. Foi então que viu aquele cenário assustador, Violet morta, muito sangue ao redor, Vincent e eu desacordados e finalmente Clair, serena como um anjo. O jovem aproximou-se dela tocou seu peito e sentiu que seu coração batia forte, encantado com tanta beleza não resistiu e beijo-a com muita ternura. Neste momento nós despertamos, a névoa que envolvia o castelo se dispersou e para minha surpresa Violet também acordou.
Clair e Arthur casaram-se e continuaram morando no castelo. Violet perdoou Clair e as duas tornaram-se grandes amigas. Porém eu nunca mais recebi o amor de Vincent. Após o acontecido ele passou a me ignorar. Vivíamos como estranhos em aposentos separados do castelo.
Não suportava mais aquela situação, e no fundo sabia que era merecedora do desprezo de meu esposo. Então decidi partir, não anunciei minha partida, não suportaria ver Clair triste, pois mesmo após saber a verdade sobre sua origem, ela continuou me amando.
Hoje vivo humildemente em um vilarejo distante do reino, apenas com as lembranças felizes do amor de Vincent e o remorso pelo sofrimento que causei a uma mãe, por puro egoísmo.
Adaptação feita por Lilith.